
2 - Chamado à aventura
Quando finalmente alcançou o topo de toda aquela escadaria, quem quer que estivesse à espera dos enfeites já tinha dado seus pulos e usado outra coisa, pois por mais que Akira batesse palmas e chamasse, ninguém respondia. O lugar parecia enorme, instigando a curiosidade dela, mas não era acessível ao público. Nos grandes portões que selavam a entrada, uma placa deixava claro que por ali só passariam sábios ou escolhidos.
— Ah, pronto. Com tanta coisa interessante para eu fazer, vim perder tempo carregando essas bugigangas até aqui. — Reclamava como se não fosse culpa dela mesma ter dado de cara com esse obstáculo.
Se as coisas que digo ou penso pudessem ser ouvidas por ela, eu perguntaria como alguém consegue se perder em uma rota que deveria ser reta, era apenas seguir escada acima. Claro que a resposta que ela me daria seria cheia de argumentos mirabolantes, e sei bem que o motivo nada mais era do que falta de foco, ainda assim é algo que gostaria de experimentar.
No fim, não posso julgá-la, afinal a coitadinha passou anos dentro daquela biblioteca, sonhando com aventuras como esta. Agora estava em um mundo alternativo, cheio de vida e cores, onde personagens dos mais variados tipos desfilavam de um lado para o outro, preparando a comemoração ou realizando suas tarefas rotineiras.
Sua vontade era voltar imediatamente para onde conheceu um grupo de aventureiros que lhe contaram estarem hospedados na cidade à espera de que uma família de dragões deixasse as terras próximas para que pudessem seguir viagem em segurança. Eles diziam que assim como alguns pássaros, esse tipo de dragão fazia uma migração anual para o sul a fim de acasalar e, portanto, era mais prudente aguardar do que ir incomodá-los em seu descanso.
Infelizmente, além de não ter certeza do caminho, também estava cansada demais para andar imediatamente. O jeito seria sentar na escadaria e aguardar que recuperasse as forças para voltar ao trabalho ou que alguém surgisse para conversar.
— E como foi que ele reagiu à notícia, afinal? — A voz jovial vinha de dentro do templo e não falava com ela.
Enxerida, ficou atenta a cada palavra, querendo saber mais.
— Eu queria dizer que ele teve uma reação digna de um herói, que entendeu a metáfora e que está pronto para encarar seu destino, mas não foi nada disso. — Akira virou para ver quem estava falando agora. Era um idoso de barba longa, vestia uma túnica e carregava um cajado, que ela julgou como bastante clichê e me fez corar sem jeito. Não foi difícil determinar que aquele era o mestre que instruiu o protagonista durante a jornada. — Ele ficou uma fera, quebrou um dos meus vasos mais antigos e reclamou por uma hora. Não pude fazer nada além de esperar ele terminar o show. Minha cabeça está me matando.
— Até que eu entendo como ele se sente, mas pelo menos agora é só esperar pelo confronto final...
— Com licença, vocês estão falando sobre o Heitor, não é? Akira levantou-se em um ímpeto, assustando os dois homens. — Eu queria conhecê-lo, podem me dizer onde ele está?
Mesmo que um final feliz fosse tão previsível quanto flores na primavera, e que ninguém estivesse muito preocupado de verdade com o desfecho do ataque, a presença de uma garota que destoava completamente dos demais habitantes despertou certa desconfiança — todo personagem sabe que autores são imprevisíveis, e nenhum gosta muito de reviravolta em cima da hora.
— Onde estão seus pais, garotinha? — O mais velho indagou, fazendo um gesto não tão discreto para o seu ajudante. — Não se mexa, vou abrir o portão para falar melhor com você, está bem?
Perguntas que ela não poderia responder e que pela sua experiência de leitora provavelmente resultariam em problemas seguidos da necessidade de uma fuga complicada. Parecia até divertido, só que seu instinto de autopreservação falou mais rápido e a fez correr escada abaixo, tropeçando algumas vezes até recuperar o equilíbrio e parar aliviada.
— Minha nossa, nunca mais corro em escada. — Olhou para baixo, tinha um longo caminho para rolar até a base da montanha.
Ainda vigiando a retaguarda, dobrou correndo a primeira esquina que encontrou. — Não era como se os dois homens tivessem dado em algum momento a impressão de que iriam segui-la, mas não queria pagar para ver.
— SAI DA FRENTE! — Um rapaz vinha a toda velocidade em um tipo de carrinho barulhento e que deixava um rastro de fumaça branca atrás de si.
Indecisa como sempre, não conseguiu escolher se saltava para a esquerda ou para a direita e terminou apenas cobrindo o rosto com as mãos, aguardando o impacto.
O barulhão de colisão, para sua sorte, não foi entre ela e o veículo. O motorista conseguiu desviar bruscamente poupando a menina, porém sendo arremessado na calçada. Além dele, muitas outras coisas voaram pelos ares, algumas peças rolando pela montanha.
— NÃAAAAAAAAAO! MEUS PROJETOS! PEGUE MEUS PROJETOS! — Ainda caído, ele acenava com um dos braços para o ar, indicando possivelmente a chuva de papéis que caía sobre eles.
— Se eu soubesse que sairia da biblioteca para ficar entregando coisas e juntando papéis não teria vindo. Isso é praticamente o que já faço por lá. — Mesmo reclamando ela ia fazendo o possível para ajudar. — Você se machucou?
— Não, estou bem. Só pegue meus desenhos, pois sem eles não posso terminar a espada do herói.
— Se está bem, poderia me dar uma ajudinha ao invés de ficar aí deitado fazendo drama. — Mal terminou a frase e se tocou de que se era ele que criaria a espada, isso significava que era o William, o ferreiro da cidade. — Ai, não acredito! Eu sou sua fã!
— Eu tenho fãs agora? Que piada. — Sorriu irônico. — Preciso da minha cadeira também, pode pegar, por favor?
— Que cadeira? — Procurando ao redor e prestando mais atenção, percebeu que aquilo que pensava ser um carrinho era uma cadeira de rodas customizada de uma forma bem estranha. — No livro não dizia que você precisava disso.
— Jura? Que surpresa não é mesmo? Uma história não se importar em contar sobre nada que não seja ultra relevante para a trama principal, como a cor de ceroulas preferida do herói, por exemplo. — Recusou ajuda para se sentar, tinha os braços fortes e hábeis, além de grande experiência em fazer aquilo sozinho. — Estou chocado.
— Você vai forjar a espada agora, não vai? — Seguia ele sem convite. — Posso te ajudar?
— Hum... tanto faz. — Sacudiu os ombros. O motor de sua cadeira parecia não estar mais funcionando, já que girava as rodas manualmente. — Sabe que não vai ganhar nada com isso, né? Nem mesmo um tapinha nas costas.
— Tudo bem, só quero ver como você faz isso. Ainda lembro de quando forjou aquela armadilha para capturar e estudar uma das estátuas.
— É, aquilo foi bem bacana. — Ele começou a acelerar os movimentos com certa empolgação. — Espere só para ver quando eu tiver o material certo nas mãos.
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